Morgana Masetti
Ela era Sofia aos olhos do diretor chileno Rodrigo Sepúlveda, Bernarda Gallardo nas noticias de jornal. Gestava o nome de varias mães silenciadas em seus sofrimentos. Uma de muitas mulheres em uma fila de adoção: primeiro filho para Sofia do filme, terceiro para Bernarda. Uma vida que se repete nas ações cotidianas: professora de uma escola no interior do Chile, trabalhadora no trajeto de ida e de volta para casa, esposa que prepara o jantar. Ritmo de gestos que parecem recomeçar do mesmo ponto a cada dia. Como tantas outras mulheres vivem no anonimato.
Uma noticia de jornal chacoalha seu corpo: no lixão da periferia de sua cidade encontraram um bebê recém-nascido morto. Havia sido jogado em uma lata de lixo. Para Sofia e Bernarda carne retalhada pelas palavras.
Ela é impulsionada a ir ao hospital onde esta o bebê, conversa com o marido, procura um advogado: quer enterrar a criança encontrada no lixão. Perguntas da Inquisição lhe batem a porta, perguntas de um tempo onde cada um cuida unicamente de seus problemas. Você é parente? Porque você quer fazer isto? Esta louca? A horizontalidade involuntária deste bebe já esta bem alocada no lugar do esquecimento. Para que retira-la da ordem da noticia do dia a ser aniquilada pela noticia do dia seguinte? Porque desloca-la da ordem do inanimado, do objeto de autopsia, do status de lixo? Ela decide que todas as segundas feiras ira se sentar na recepção do escritório do advogado, este será seu lugar de combate para tentar reverter este fato que para ela se tornou pior que a morte: a construída inexistência deste bebê. As palavras dão a este bebe o lugar da inexistência. No Chile se um corpo não é reclamado pela família, ele é classificado como dejeto humano e jogado fora com outros materiais hospitalares.
O advogado lhe diz: não há nada o que fazer. Mas Bernarda continua com suas visitas semanais ainda que lhe custe repreensões no trabalho. Para intensificar o que o mundo lhe deu ela parte da afirmativa do advogado a fim de reverta-la.
Sofia da ao bebê um nome: Aurora. Aurora é a palavra através da qual se instaura o acontecimento da morte e da vida desta criança. Sofia começa a instaurar um novo lugar para ela dentro das premissas medicas e legais. A cada vez que o advogado se refere ao bebe como o corpo ela diz Aurora. As segundas feiras se repetem por meses. Primeiro e’ preciso constatar se Aurora respirou, isto comprova o nascimento e o direito ao enterro. Isto também instauraria um inquérito sob o crime de assassinato. Depois de meses recebe o laudo: não é possível verificar se Aurora respirou, pois os pulmões foram comidos por aves no lixão. Os encontros com o advogado seguem, a cada semana. Sofia tece com ele diálogos que causam imperceptíveis rupturas no muro das leis, da burocracia, construindo vagarosamente um lugar comum no qual ela e advogado possam se escutar. É neste campo frágil e amedrontador que ele lhe aponta uma possibilidade: se ela adotar Aurora poderá enterra-la. É o que ela e o marido fazem depois de mais alguns meses. 500 pessoas vão ao enterro.
No dia seguinte que Bernarda sepulta Aurora um novo bebê é encontrado na lata de lixo. Sofia do diretor Sepúlveda, Bernarda dos jornais começa a colar cartazes nas latas de lixo: Não jogue seu bebe nesta lata de lixo.
Qual é o combate de Bernarda? Quantas camadas têm? Como ele nos contamina? Através da maternidade póstuma Aurora vive. Uma filha que representa o desejo de que nenhum bebe possa ser abandonado porque se isto acontece é porque a sociedade não pode abraça-lo, não pode nina-lo. Ao elevar de dejeto do lixão ao nome Aurora, Bernarda nos coloca em comunhão: podemos nos conectar com a vida que passa por Aurora, com mulheres que, desprotegidas de apoio familiar e das leis, precisam abrir mão de seus bebes.Penetramos no acontecimento de estupros silenciados.
No tumulo de Aurora passam a ser deixadas flores debruçadas pelas dores das mães que choram por seus filhos abandonados, um espaço concedido para viver seus lutos, onde o anonimato pode ser lugar de potencia. Depois de Aurora, Bernarda adotou Manuel, Victor, Cristóbal, Margarida. Filhos de uma maternidade póstuma. Sob a força deste anonimato Bernarda abre novas possibilidades para uma reflexão do nosso cotidiano a partir de um corpo totalmente envolvido e não da consciência que julga.
Aurora ocupa este ato de respiro indeterminado do ponto de vista medico, mas que se afirma como vida potente através da maternidade de Bernarda. Esta condição que se cria e que amplia possibilidades de pensar saúde.
Que nos coloca diante da afirmativa de que pensar e’ aprender a ser afetado, é transgredir uma relação de indiferença que nos conforma como espectadores do real. Começamos a pensar quando aquilo que sabemos ou não sabemos afeta nossa relação com os fatos, com o mundo, com os outros. Uma coragem que se cultiva na relação afetiva com o outro. Esta é a experiência fundamental que pode modificar nossa relação com uma atualidade totalmente privatizada, experiência sobre a qual Aurora e Bernarda nos ensinam tão bem. Vozes que o diretor chileno Sepúlveda amplifica através da personagem de Sofia e que ressoam intensamente dentro de mim.


Deixe um comentário