As histórias que ouvimos todos os dias sentados em nossas cadeiras ou na cadeira de outros, são histórias corriqueiras que até parecem inofensivas, invisíveis e, mesmo assim, constroem um mundo.
Semana passada, sentada na sede dos Doutores da Alegria, ouvi uma história triste, dessas que pesam nos ombros, que arrastei nas costas ao caminhar. Era triste não por falar de morte, nem de morte de crianças. Era triste assim, ao extremo, por falar do olhar que faltou, da escuta que faltou, do vinculo que faltou da soma de tudo isso plantão após plantão, turno após turno. Que fez da morte casos sem culpados, e sim um coletivo que, adoecido das relações, não encontra espaço para cuidar da palavra cuidar. Talvez o mais assustador seja que as pessoas que ali estavam para cuidar possivelmente acreditavam que cuidavam e as que estavam para ser cuidadas acreditaram estarem sendo cuidadas. O cuidado, esse lugar sutil, invisível, da possibilidade de se afetar e afetar, de se vincular com o que acontece através do olhar, da escuta. Se assim não procede, quando as estatísticas apontam para um alto índice de mortalidade, elas se elevam em números desconhecidos, porque falam da morte de todos nós, que envoltos em pensar saúde não conseguimos superar a doença da falta de vínculo, de enxergar no outro um pouco de nós.


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