Há alguns dias tive a oportunidade de, no mesmo dia, estar à tarde com a turma de medicina da Faculdade Santa Marcelina, para a aula inaugural do que serão cinco encontros mensais com formadores da Escola dos Doutores da Alegria e, à noite, com a terceira turma do programa Madalegria da Falculdade de Medicina da USP (encontros semanais de março a dezembro).

Ambos os encontro intensos, que me instigam a pensar sobre o que é importante proporcionar para uma formação médica. Na aula do Madalegria, os alunos participaram de um exercício onde eles deveriam imitar, através de playback, um ídolo da música. Eles se prepararam para a atividade estudando o figurino do ídolo, modos de andar, dançar etc. Depois, com uma platéia de fãs vibrantes (nós formadores e demais alunos), cada ídolo cantava a música escolhida . Uma brincadeira deliciosa de ser, por alguns minutos, o ídolo.
Este exercício me fez pensar muito. Imitar é atividade essencial para nossa formação humana. Quando pequenos, construímos nossos jogos e nosso imaginário imitando super heróis, imitando adultos na brincadeira de casinha e imitando profissões, nas brincadeiras de médico. A criança faz comunhão com o mundo através do gesto. Ele é a matéria para construir a gramática de nossa infância. Nosso imaginário pode se ampliar através desta experimentação de ser outro e, com isso, ganhamos na infância elementos fundamentais para o que, mais tarde, chamamos de empatia.
O gesto tem papel fundamental na adolescência. É neste espaço turbulento de descobertas que experimentamos vários estilos de falar, mover, vestir, que partem de comportamentos desengonçados, mas que nos dão pistas do que cabe em nós, gestos da nossa essência. Quanto mais rica possibilidade de experimentação, maior é a chance de encontrar um gesto que fala de mim. É assim que, ainda adolescentes, encontramos estes alunos.
No mundo da educação formal, a variedade de gestos vai rareando. Ficaremos, ao longo da vida, muitas horas sentados vendo da nossa carteira o mundo se apresentar. Respondendo a ele através de provas e notas. Nosso conhecimento perde a possibilidade de enriquecer o mundo com a matéria do gesto. O que vi nestes jovens que puderam ser Ney Matogrosso, Marisa Monte, Seu Jorge e outros, foi a recolocação da experimentação do gesto como parte da formação deles. Três Ney Matogrosso cantaram, um diferente do outro de acordo com a apropriação dos gestos escolhidos. Lindo! E eu me digo: virar médico trata de um conjunto de habilidades, conhecimentos e uma boa dose de imitação. Aqui o ídolo pode ser o médico de infância, alguém que cuidou de mim ou de um parente próximo, um professor da universidade, alguém que eu diga : quero ser como ele. “Quero ser como ele” é uma afirmação da vida, significa que algo me inspira e me move.
Uma boa questão para os que estão cuidando da formação médica é pensar em como transformar o gesto que nasce da imitação em um gesto que fala da identidade. Como gerar caminhos de apropriação de um gesto imitativo para um gesto próprio? O que tenho sentido, como formadora na sala de aula, é que este espaço pedagógico para o gesto genuíno é possível dentro da formação do profissional de saúde. Na atividade do ídolo estavam presentes todos os ingredientes importantes para o aprendizado: observação, estudo, preparação para a atividade, acolhimento para a experimentação. Quero ressaltar este ultimo tópico. Não basta imitar o ídolo, eu acredito ser o ídolo e a plateia é muito importante para isso. Ela acredita junto, ela vibra, ela bate palmas.
Aqui, por um tempo, se invertem os papéis acadêmicos estruturados: o professor se senta na platéia, opera a mesa de luz e som, coloca os holofotes no aluno: que o palco seja dele. Imagem de um espaço pedagógico potente. Não se trata de perder o lugar do mestre, ele é vital, mas de torná-lo leve e fluido. Se assim for, poderemos evocar todas as brincadeiras da infância para que elas frutifiquem médicos competentes. O conhecimento sem o gesto próprio é palavra sem morada: pode ser escutada mas não abriga.


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