Por Morgana Masetti
“COMO ACREDITAVA que tinha um anjo protetor no seu casaco, nunca o despia.
Quando o quiseram recrutar para a batalha ele disse logo que sim, desde que pudesse combater com o casaco vestido. O casaco tem lá dentro um anjo que me protege, justificou.
Claro que as hierarquias militares não aceitaram. Ninguém combate sem uniforme. O homem do casaco insistiu, mas nada feito. Não o aceitaram. Ficou em casa. Os soldados que entraram na batalha morreram todos.” (Gonçalo M. Tavares – O casaco do livro o Sr. Brecht)
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Alguns dias atrás, fiquei algumas horas no aeroporto Santos Dumont com a ponte aérea fechada devido a problemas meteorológicos. Aproveitei este tempo que, se tomado sem ansiedade, pode se converter em raro espaço de reflexão. Em um canto mais sossegado, em meio aos passageiros que se avolumavam voo após voo que não partia, me perguntava o que seria realmente importante falar aos alunos de medicina para os quais preparava minha aula daquela tarde. Encontrei no pequeno conto de Gonçalo uma pista. Naquela tarde iria me encontrar com alunos do primeiro ano de medicina. Prontos e sedentos pela educação médica. Uma educação que os preparará para batalhas contra a morte, esta imagem de guerra que preenche nosso imaginário e se transforma em ação e linguagem na identidade médica. Assim contamos batalhas no hospital: lutar contra a doença, bombardear o inimigo estranho ao corpo, resistir bravamente. Os remédios, nossos aliados, são combatentes contra o inimigo infiltrado. Na guerra e no hospital os lugares seguros serão garantidos: assepsias rigorosas contra os líquidos contagiosos dos doentes.
Aliada a esta linguagem que constrói a realidade hospitalar, a modernidade garantirá uma série de técnicas e procedimentos para que, no embate contra a morte, os corpos dos pacientes se tornem mais disponíveis aos ritos e propósitos médicos. Assim, a anestesia afastará a dor da cena cirúrgica e modificará a consciência do paciente para garantir as intervenções feitas em seu corpo.
Com todo este aparato resta educar e treinar os profissionais. Sabemos o quão difícil é o curso médico. Força, perseverança, estudo, controle emocional e treinamento físico através de plantões intermináveis serão necessários até o titulo que certifique o estudante para o campo de batalha.
Então, como em poucas horas, garantir que estes jovens possam ir para batalha com seus casacos? Como nutrí-los desta metáfora na qual o divino ainda possa fazer parte de suas formações? Como formá-los para que o invisível e o sutil caibam nos livros? Para que percebam que acima e apesar do termo manipular o paciente os atravessará o verbo tocar o paciente?
Todo o aparato técnico e o conhecimento estão descritos e bem estabelecidos mas como abrir uma janela que garanta a palavra EU antes da palavra médico? Como cultivar um lugar identitário através do qual possam se conectar com o que sentem para continuar a olhar ? Como abriga-los em seus casacos, espaço interno seguro para o qual sempre poderão regressar em suas trajetórias?
Ir para o campo de batalha só com os uniformes é matar um modo individual de fazer. É tirar o nome do médico tal qual como dar ao paciente o número de um leito. É matar um modo singular de estar, aquele que combinará conhecimento e acaso, técnica e emoções, controle e encantamento com o imprevisível: o divino que vive em nós.
Iniciativas tímidas estão sendo abertas para uma formação ética do cuidado dentro das organizações de ensino médico. Dentro do currículo algumas horas, como a que me deram naquela tarde. Resta a pergunta: Conseguiremos formar estes jovens para irem para a batalha vestindo seus casacos?

