O poeta
faz agricultura ás avessas:
numa única semente
planta a terra inteira.
Com lamina de enxada
a palavra fere o tempo:
decepa o cordão umbilical
do que pode ser um chão nascente.
No final da lavoura
o poeta não tem conta para fechar:
ele só possui
o que não pode colher.
Afinal,
não era a palavra que lhe faltava.
Era a vida que ele, nele, desconhecia
Mia Couto


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