Florença abrigou o Renascimento, uma das épocas mais efervescentes da humanidade que buscou integrar vários conhecimentos para compreender o mundo. Uma época que elevou o artista ao divino e conjugou beleza e ciência. O espírito inspirador desta cidade foi um cenário oportuno para o encontro de cientistas e palhaços na I International Conference on Pediatric Clown no Hospital Universitário Pediátrico Meyer.
Foram dois dias intensos: 35 apresentações de trabalhos científicos e mais de 20 comunicações na forma de pôsteres. Em torno de 15 países foram representados: entre eles Índia, Israel, Canadá, França, Espanha, Portugal, Holanda, Brasil, Itália, Estados Unidos, Eslovénia e Áustria.
O Congresso trabalhou em sua capacidade máxima de participantes, e Laura Vagnoli, que coordenou a organização do evento, precisou recusar inscrições. Isto mostra a vitalidade que possuem os espaços para conversar sobre a prática do palhaço no hospital.
Acredito que estamos diante de um momento histórico desta atividade, onde sentimos a necessidade de desenhar a etapa seguinte. O palhaço atuando na área de saúde é um fato, mas como seguir? Para onde? Um novo patamar, tão ou mais desafiante quanto o primeiro, que colocou palhaços em hospitais e descobriu como fazê-los operar nesta realidade.
Estamos buscando verticalizar esta ação, cada grupo com suas individualidades culturais e de liderança. Le Rire Medicin (França): dedicando-se a estabelecer pilares para a formação do palhaço e criar uma certificação reconhecida pelo governo. Dream Doctors (Israel): desenvolvendo metodologias para trabalharem total colaboração com a equipe em um grande número de procedimentos médicos. Muitos grupos dando formação para profissionais de saúde através do olhar do palhaço. Um grande número de países desenvolvendo e registrando conhecimento através de pesquisas, combinando conceitos do universo médico, da psicologia e física para criar linguagem sobre o que acontece no encontro entre o palhaço e o público no hospital e, assim, buscar este novo patamar.
Michael Christensen, o pai desta atividade comum, a específica metodologia no mundo, me perguntou em uma de nossas conversas: quantas vezes você já ouviu minha história? Surpreendi-me, escutar sua história não tinha o peso da repetição. Porque não se trata dela, se trata do que pede passagem através dela: nossa necessidade de nos conectarmos com nossas humanidades.
Histórias como a de Caroline Simonds (Le Rire Medicin), Giora Seeliger (Red Noses) e outros pioneiros deste trabalho no mundo, nos mantém conectados com a essência e propósito desta atividade que é maior que cada uma destas histórias ou pessoas. Um propósito que pede passagem na atualidade, ao qual nosso imaginário se liga e trabalha para transformar em realidade. Um propósito a ser colocado a serviço da saúde, de um mundo saudável. Utopias, em certo sentido, mas que projetam possíveis futuros.
O relógio segue, tic tac, presenciando a história da humanidade. Acredito que este encontro escreveu mais algumas palavras sobre ela. Cada um volta para seu país reafirmando valores, nutrido com idéias, caminhos, parcerias.
Um novo encontro tem data para acontecer: 2016, em Lisboa. Estamos todos convidados a seguir neste propósito e nos encontrarmos, desta vez, sob o manto poético de Fernando Pessoa.


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