Semana passada tive oportunidade de encontrar o grupo Mad Alegria para dar uma aula. Projeto de cultura e extensão universitária da USP, forma alunos de varias áreas de saúde para intervirem como palhaços nos hospitais. Esse e outros grupos de estudantes desta área no Brasil estão fincando bandeira em um desejo importante: atravessar a universidade por uma outra experiência de aprendizado, diversa da que encontram, em geral, em sala de aula: uma experiência de sentidos. Sentidos físicos (olhar, ouvir, tocar) e também sentidos imaginários para a vivencia de doença e cura.
A medicina é, antes de tudo, um espaço através do qual podemos tecer nosso imaginário sobre experiências ligadas a vida, morte, sofrimento, perdas. Olhar, escutar, tocar fazem circular este imaginário. E também o dom da cura, um processo que envolve técnica e magia, que jamais se revela por mais que a ciência construa modelos para isso. A estrutura de funcionamento atual da medicina dificulta a circulação deste imaginário social. A formação médica valoriza prioritariamente a técnica, a relação de sintomas e saberes. Tudo o que não pode ser nomeado dentro desta estrutura de funcionamento não diz respeito á formação deste profissional.
Um curso de palhaço dentro da universidade de medicina insere a possibilidade de fazer circular afetos e sentidos sobre este universo. E’ um espaço que trabalha na contramão do que estes jovens irão aprender. Recoloca a magia no processo do imaginário médico. Isto não é pouco. Mais importante que formar palhaços, esta experiência poderá formar bons médicos, enfermeiras, fisioterapeutas. Um passo importante para a medicina do futuro. Mais belo ainda: esta ação parte do desejo destes jovens. Talvez um desejo difícil de nomear, que aparece através da máscara do palhaço, mas que fala da possibilidade de colocá-los em contato com um futuro profissional mais próximo do imaginário deles sobre a arte de cuidar.


Deixe um comentário