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Zona de fronteira: território de passagem

A caminho de dois mundos que não se encontram saio da zona sul para a periferia. O destino é Av Londres.O batismo é de primeiro mundo, o território é de guerra.

Cercado pelo Complexo da Maré, uma das maiores favelas do Rio de Janeiro, o hospital de Bom Sucesso marca solo onde vários mundos se encontram. Ali circulam as doenças sociais que esperam ser cuidadas. Acordam na fila de espera, almoçam na fila de espera, convulsionam e sangram na fila de espera. No balcão todos tem títulos gravados nas costas de seus uniformes: maqueiro, gesseiro, Futura Serviços Empresariais para Limpeza.Três seguranças para duas portas em um espaço de vinte passos. Deve ter um motivo. Do lado de lá uma multidão na espera sem limite. Uma cama grudada na outra. Para passar os profissionais movimentam um senhor magro e com barba por fazer que está obstruindo a porta. Ele vai e vem, vai e vem, conforme a porta se abre. Ele tem uma bolsa para urinar pendurada na maca e pede cuidado com ela a quem passa por ele.O cenário é de guerra: uma maca encostada na outra, pacientes uniformizados de verde e com números nas costas. O senhor da porta é o 68. Os outros dormem, rezam, gemem e dividem suas privacidades nas camas sem distância nem respiro. Os corredores foram incorporados ao atendimento. Um papel grudado onde se lê : corredor ortopédico, outro escrito: CTI ( centro de terapia intensiva). O balcão de enfermagem foi readapatado: os pacientes melhores aguardam sentados nele em um semi circulo, aproximadamentes dez. Para nós que temos um plano de saúde parece ficção, um improviso que se desmanchará da visão em instantes. Mas as placas dos corredores são bem cuidadas, não estão ali de improviso, contam que esta arquitetura super povoada faz parte do cotidiano. Dois mundos: os que atendem e são atendidos. Ambos tem olheiras.

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