Mais que falar de um livro, quero apresentar aqui a força que vem da Lia Jaluff e Maria Eugenia Panizza em gestar língua para falar do trabalho do palhaço no hospital, parir caminhos para construir encontros entre o universo da saúde e da arte. Força que vem da dedicação dos pesquisadores e da sensibilidade dos artistas em ver: ambos caminhos que as duas autoras escolheram para falar deste oficio. Não é uma escolha fácil juntar a arte da ciência e a ciência da arte. Em geral elas prescindem uma da outra para seguir com suas identidade não ameaçadas. Mas, no momento atual, o que mais precisamos é destes caminhos cruzados para entender a complexidade do mundo e avançarmos em nossas humanidades.
É com prazer que apresento Lia e Maria Eugenia e suas experiências com o coletivo Payasos Medicinales (Uruguai) no livro Payasos de Hospital.

Um livro: Palhaços de Hospital.
Por Lía Jaluff (Lic. em Psic./ Atriz/ Palhaça)
Por que escrever sobre os Palhaços de Hospital? Por que insistir no poder do encontro entre a arte e a saúde? Para que fundamentar o papel do palhaço para a transformação? É possível sistematizar a experiência sensorial do encontro com palhaços? E, se é possível, é necessário?
Em dezembro de 2012, junto com Maria Eugenia Panizza (Lic. em Psic/Palhaça), editei um livro em Montevidéu. Um conjunto de experiências, conceitos e pensamentos. Um trabalho de caracterização do palhaço no hospital. Uma tentativa de afirmar, em poucas palavras, o que significa para o grupo de Palhaços de Hospital a tarefa diária de levantar pequenas grandes máquinas – nas palavras de Guatarri – revolucionárias, políticas, conceituais eestéticas, que sirvam de engrenagem para a construção de um mundo com hábitos mais saudáveis e pessoas mais alegres.
No texto insistimos sobre o ato de quebrar o silêncio. De quando a arte surge em um centro de saúde e os efeitos que ela provoca. Das lógicas que se deve reconstruir, em função do fato artístico: a lógica da doença, do silêncio , da passividade e do poder.

Em primeiro lugar a lógica da doença, da falta de saúde. Quando o palhaço entra em um hospital, é direcionado para o encontro com o outro, com a história do outro, com sua doença e as circunstâncias, mas também com seus desejos, suas alegrias e seu poder de vida. Este livro, como o palhaço, foi escrito para encontrar-se com o outro. Para incentivar a reflexão coletiva. Para divulgar uma determinada prática que precisa ser reinventada no coletivo, na troca.
Em segundo lugar a lógica do silêncio. O palhaço propõe no hospital o riso e a música como elementos válidos para comunicar emoções. Da mesma forma, este livro pretende apresentar uma experiência, mas também denunciar um sistema de saúde carente de espaços para a cura, para propor outras melodias.

Em terceiro lugar, a lógica da passividade. Os palhaços estão envolvidos desde a improvisação, convidando o outro a ser protagonista do ato criativo. Este livro é um convite a pensar junto e seguir fazendo.
E, finalmente, a lógica do poder. A possibilidade de inverter a ordem, de alterar as funções. Um médico que pode se tornar doente, um palhaço que pode se transformar em enfermeiro, um artista que pode brincar de ser médico. Ou duas palhaças que podem escrever um livro porque sentem que têm algo a dizer, e que é necessário ser dito.


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